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Educações e racismos



Pensei bastante antes de falar sobre discussões historiográficas num blog mais "leve" como o Fragmentos. Sabendo que a leitura acadêmica fora das universidades ainda é muito restrita, imaginei que uma resenha desse tipo não agradasse aos internautas, leitores mais acelerados e multifuncionais. Por outro lado, gosto sempre de lembrar que o texto mais visualizado dessa coluna trata sobre o mito da democracia racial no Brasil, desconstruído justamente a partir de referências acadêmicas. Outrossim, se não fosse para ultrapassar os muros da universidade, como normalmente acontece, e socializar os conhecimentos produzidos ali, não faria sentido para mim estudar numa instituição pública. Na verdade, não faria sentido estudar.

Especial: Oscar 2014 - O Lobo de Wall Street


"O Lobo de Wall Street” concorre ao Oscar de hoje em cinco categorias: filme, diretor, ator, ator coadjuvante e roteiro adaptado. No caso, as figuras da disputa são Martin Scorsese, Leonardo Di Caprio, Jonah Hill e Terence Winter. Todos, sem dúvida, são merecedores de atenção do público cinéfilo, mas não vejo nenhum deles entre os favoritos pela Academia. Entre eles, Di Caprio talvez seja o mais distante da estatueta, mais uma vez.

Os igarapés e uma literatura do Pará


Não sei qual amigo uma vez disse que paraense se reconhece no igarapé.

Que rede, que nada. Nem círio. Tacacá, muito menos.

Mais do que o amazonense, que talvez seja mais ligado no rio grande e caudaloso, ou que qualquer outro amazônida, o paraense de modo geral sente-se em casa quando banhando num igarapé. Era a tese desse amigo que nunca conheceu nenhum outro estado da Amazônia a não ser o mais nordestino deles, o Maranhão.

"Os loucos somos nós"

"A dor só vira palavra escrita depois de respirar dentro de cada um como pesadelo."

Escrita por Eliane Brum no prefácio de "Holocausto Brasileiro", essa é uma das frases que melhor representa o significado do livro de Daniela Arbex, publicado recentemente pela Geração Editorial. Na luta contra o tratamento manicomial, o livro desta jornalista mineira pode emergir como importante instrumento de sensibilização para a causa, a qual discute a ineficácia, o desrespeito e a desumanidade com que são tratadas as pessoas diagnosticadas com doença mental no Brasil.

Dogmatismos e tradução cultural

Religiosos dogmáticos são um saco. Assim como um saco também são ateus dogmáticos. Afinal, o dogmatismo impossibilita qualquer posicionamento mais profundo e esclarecido em relação à vida. 

Seja hinduísmo, judaísmo, islamismo, santo daime, umbanda, cristianismo ou candomblé, o problema é o dogmatismo, não a religião. Digo, o “mau” religioso é aquele que enxerga apenas o seu mundo e que pretende impor suas verdades sobre as verdades dos demais. E existem bastante religiosos que passam muito distante desse estereótipo. Outro problema é que sempre quando há predominância e poder combinados cria-se um ambiente favorável ao surgimento da dominação.

Em defesa do SUS

Falar de saúde pública no Brasil é complicado. Somos muito bem informados, tanto pela direita quanto pela esquerda política, acerca dos inúmeros problemas encontrados pelo Sistema Único de Saúde (SUS). Temos filas para atendimento que são intermináveis, poucos profissionais disponíveis nos hospitais, escassez de equipamentos e medicamentos, baixos salários, negligência médica etc. Disso todo cidadão brasileiro tem conhecimento. No entanto, pouco é discutido a respeito dos avanços ideológicos e conceituais representados pela implementação do SUS a partir da Constituição de 1988 e das Leis Orgânicas da Saúde, de 1990.

Sobre a discussão a nível internacional, aqueles que assistiram ao filme Sicko, do norte-americano Michael Moore, talvez percebam o quanto estamos avançados em relação a grandes potências econômicas como os Estados Unidos, ainda que o documentário se detenha apenas à comparação entre as políticas públicas para a saúde encontradas em seu país de origem e em países europeus e latino-americano, como Cuba.

O documentário demonstra como o sistema de saúde dos EUA está completamente privatizado, fazendo com que toda a população seja obrigada a recorrer a convênios médicos cujo valor normalmente é altíssimo. Caso não tenha dinheiro suficiente nesse país maravilhoso, você ficará sem atendimento algum, seja qual for o seu problema de saúde. Em contraposição, na França e na Inglaterra, por exemplo, onde os tributos são considerados altos à primeira vista, o sistema paga até sua passagem de ônibus para que você procure um hospital. Todos os procedimentos são gratuitos, e o sistema parece funcionar bem.

Crítica pela esquerda

A crítica de outros setores de esquerda ao governo do PT precisa ser mais cuidadosa. Digo isso não porque comungo da retórica petista de que partidos como PSOL e PSTU servem apenas para engrossar o coro conservador da direita. Esse tipo de argumento parece, muitas vezes, bem mais uma tática de monopolização da representação política dos trabalhadores do que exatamente uma defesa racional. Mas o que venho percebendo, baseado principalmente nos acontecimentos das últimas semanas, é que a esquerda brasileira anda confusa, pois ainda não aprendeu a lidar com o fato de que, se não temos um governo de esquerda, tampouco temos um de direita. 

Isso não significa que a direita não tenha mais tanto poder quanto antes, mas que a esquerda, de uma forma ou de outra, vem conquistando mais espaço. Sabemos que a direita se encontra tanto fora quanto dentro do governo de coalizão montado pelo PT, e com muita força, como é o caso do PMDB e do PSC. No entanto, as políticas implementadas nos últimos dez anos possibilitaram um sensível aumento na renda da população brasileira. Ricos enriqueceram muito, mas pobres também alcançaram certo poder aquisitivo. Por outro lado, não avançamos de forma significativa em questões como soberania popular, direito à resistência ou combate à desigualdade social, pilares das propostas de esquerda.

Kubrick e a educação

Os livros da coleção “Primeiros Passos”, publicados pela editora Brasiliense, são alvo de severas críticas em relação à suposta superficialidade com que tratam os temas propostos. São livros bastante comerciais devido ao padrão encontrado em seus títulos (“O que é...”). E aqui não podemos negar que títulos como esse, se levados ao “pé da letra”, são extremamente pretensiosos e irrealizáveis em termos de “totalidade” do conteúdo, negligenciando a historicidade e a contextualização dos conceitos e definições, mas o caráter propedêutico (introdução a estudos mais desenvolvidos de determinada disciplina) desses livros é bastante proveitoso e importante para muitos iniciantes. Dentre os mais de 300 números dessa publicação, li apenas três: História, de Vavy Pacheco Borges; Dialética, de Marilena Chauí; e Educação, do antropólogo Carlos Rodrigues Brandão. Considero os dois últimos os mais completos, em termos propedêuticos, mas tentarei discorrer apenas sobre “O que é Educação”, livro que alcançou imensa popularidade, passando de quarenta edições publicadas no Brasil.

Elementos do mito da democracia racial no Brasil

O Império brasileiro ainda era recém-formado quando o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB) foi instituído em 1838. Este foi um momento em que o Império estava sendo governado por uma Regência, não por um imperador. Período em que ocorreram inúmeras revoltas regionais (algumas separatistas), as quais, entre outros fatores, provocaram fortes preocupações em relação à manutenção da unidade nacional. Tínhamos ainda o Romantismo na literatura dos escritores de maior destaque no cenário nacional, como Gonçalves Dias, Gonçalves de Magalhães e José de Alencar, muitos deles ligados à administração pública e ao poder político. Representantes daquela que ficou conhecida como a “primeira geração” do Romantismo brasileiro, suas obras eram marcadas pela exaltação das características, dos valores e dos símbolos nacionais. A partir de suas visões de mundo, exaltar o Brasil significava, muitas vezes, exaltar dois personagens primordiais, os índios e as matas, ambos percebidos de forma uniformizada e idealizada.

O que aprendi com as trabalhadoras domésticas

Há aproximadamente um mês, três trabalhadoras domésticas que estavam retornando aos estudos após anos de intervalo procuraram meus serviços em busca de aulas particulares de introdução aos estudos da língua portuguesa e da produção textual. Sem titubear, motivado pela importância que eu poderia representar na retomada do percurso escolar daquelas que sempre estiveram presente em minha vida tão classe média, aceitei a proposta. Talvez tenha sido um ponto de partida desafiante para quem ainda não tinha nenhuma experiência mais séria como professor, mas, encarado com imensa responsabilidade, esse trabalho já me proporcionou, como professor em formação, verdadeiros “saltos qualitativos”. Espero sinceramente que as mulheres que estudam comigo estejam aprendendo tanto quanto eu com elas. 

O objetivo deste texto não é, como pode ter parecido, debater questões pedagógicas relacionadas à “educação para jovens e adultos” nem demonstrar como professores podem aprender tanto (e ensinar ainda melhor) a partir de um contato mais dialógico com suas alunas e alunos. Isso, porém, estará evidente nos parágrafos seguintes. Meu objetivo é trazer para o conhecimento dos leitores as principais questões levantadas num dos debates mais interessantes que já tive a honra de participar. Numa de nossas últimas aulas, realizamos a leitura de um texto publicado no blog do cientista político Leonardo Sakamoto e colocamos em discussão a  Emenda Constitucional (EC) nº 72/2013, aprovada pelo Congresso a partir da Proposta de Emenda à Constituição nº 66/2012, a chamada "PEC das Domésticas". O mais instigante foi que todas participaram ativamente do debate, contribuindo com reflexões interessantíssimas, já que possuem amplo conhecimento prático acerca de suas condições.

É democrático ser antidemocrático?

Nas últimas semanas, acompanhamos as lamentáveis declarações de Joelma em entrevista concedida à revista Época. Em meio a um contexto de ascensão do "religiosismo" conservador de determinados setores do cristianismo brasileiro, representados na pessoa do intragável pastor Marco Feliciano, a cantora da Banda Calypso incitou tanto protestos progressistas quanto confusas defesas reacionárias. Não sei se a direita política nalgum momento já soube argumentar de forma razoavelmente coerente, sem atropelar os supostos interesses democráticos presentes mesmo em seu débil discurso – ainda mais débil do que suas ações –, mas desta vez conseguiram superar inclusive os limites de sua ignorância e de sua retórica capciosa.

De criança para criança

Desde o despertar de sua consciência, ela vivia em crise. Perguntava-se sobre o mundo, a vida, o estudo, a miséria – que ela não presenciava, apenas ouvia falar – e tudo o mais.

Em casa, ao mesmo tempo em que era tratada como uma princesinha mimada, viam-na como uma espécie de aberração. Que menina mais esquisita, diziam, vive fazendo perguntas demais, músicas demais, nunca entende nada, parece até uma retardada. Estranho falarem isso de alguém que apenas queria entender as coisas, que apenas queria entender o mundo ao seu redor. Estranho. Mas era o que acontecia. E, cada vez mais, com maior frequência.

Na escola, era calada. Não que não tivesse perguntas a fazer por lá também. É que, lá, não tinha intimidade com as pessoas. Não sentia conforto e acolhimento suficientes para mostrar sua verdadeira personalidade, tão criticada pelos familiares. Ora, se até os meus pais acham que estou errada e que deveria parar com essas coisas, é porque realmente devo estar.

Qual o sentido da vida? Por que umas pessoas nascem ricas e outras pobres? Para que se casar, se as pessoas sempre se separam? Por que não posso ser feliz, se não comprar uma boneca da Estrela? Por que vejo meninas e meninos mais velhos se beijando, enquanto que nunca vi meus pais se beijarem – a não ser, é claro, aquela vez em que meu pai foi promovido. E o tio Jorge? Ele arranjou um namorado. Não entendo porque o expulsaram de casa. Será que é porque ele fica com essa mania de beijar os outros na boca e não faz como meus pais, que há anos não se beijam? Sei lá, beijar na boca deve ser errado. Logo se vê que os que mais beijam são os adolescentes, os que não têm nada na cabeça. Devo parar de tanto fazer perguntas? Acho que sim, nunca obterei respostas mesmo. Sou a única que se interessa por elas.

Engolidos e dilacerados


Uma banda de música produz um filme sem exageros na trilha sonora. Sem muitos ruídos, silencioso até o final. Sem diálogos ou narração contados por meio de legendas, como se fazia nos primeiros anos do cinema. Nada, serenidade total. Não há muitas expressões faciais também. Na verdade, os personagens nem rostos têm. Ora capacetes, ora máscaras de cera, são sempre cabeças artificiais, manualmente produzidos, obras do desenvolvimento tecnológico humano. Um filme que fala sobre a humanidade em busca de si. A banda é Daft Punk. O filme, Electroma.

Escrito e dirigido em 2006 pelos franceses Thomas Bangalter e Guy-Manuel de Homem-Christo, o filme contou com a colaboração de mais dois roteiristas, Cédric Hervet e Paul Hahn. Thomas e Guy, os criadores de Daft Punk, um dos grupos mais criativos da música eletrônica atual, tornaram-se mais conhecidos depois da trilha sonora produzida para o filme Tron: Legacy, de 2010. Suas performances de palco e seus videoclipes apresentam elevado refinamento técnico, sempre envolto ao tema tecnológico, misturando exaltação e crítica a esse mundo cada vez mais robotizado em que vivemos. Fantasiado de androide, o grupo, ou a dupla, utiliza diversas ferramentas sonoras e visuais do mundo moderno para criticá-lo na mesma medida em que o idolatra. Technologic talvez seja sua música mais emblemática, principalmente quando assistimos ao seu videoclipe. A partir de letras extremamente simples, mas bem manobradas, como Buy it, use it, break it, fix it/Trash it, change it... [compre, use, quebre, conserte, descarte, troque], Daft Punk cria um cenário atrativo, dinâmico e enérgico – além de macabro, quando estampa o consumismo e a corrida tecnológica desenfreada sendo representados pela cara de um esqueleto meio robô, meio Chucky, o boneco assassino. A banda é pulsante.

Meia verdade, mentira completa

Charles Foster Kane, dono do maior império jornalístico americano, na primeira metade do século vinte, conseguiu ser vítima da pobreza e da riqueza e ainda sair da vida para entrar na história como um vilão. Tudo isso em uma só vida. Trata-se aqui de uma obra fictícia, o filme Citizen Kane (“Cidadão Kane”, no Brasil), dirigido, escrito e interpretado por Orson Welles, em 1941.

A obra é conhecida principalmente por suas contribuições técnicas, que produziram uma profunda inflexão sobre o curso da linguagem cinematográfica. Muitos a consideram a obra mais importante desde a invenção do cinematógrafo pelos irmãos Lumière. Por outro lado, há um vasto e profícuo conteúdo social e político a ser discutido.

Vendados e vendidos

Um mundo em que as pessoas encerram os limites de seus conhecimentos, consumindo todo o seu tempo em torno de pouca coisa. Um mundo em que o habitante ideal procura conhecer cada vez mais sobre cada vez menos, saber tudo sobre nada e voltar seu conhecimento para si mesmo, ignorando sua função social. Um mundo voltado quase que exclusivamente para o mercado e que abriga habitantes que se submetem a essa lógica, definindo o comodismo e a apatia individualista de suas vidas. Afinal, para esses estrangeiros do mundo real, nenhum conhecimento vale a pena caso não encurte a distância entre nós e o lucro. Essa é a universidade, mais uma instituição descaracterizada e submetida a objetivos mercadológicos.

Educação para o respeito às diferenças

A educação e os problemas relacionados à sua plena implementação compõem um tema que fundamenta algumas das principais discussões acerca dos obstáculos que impedem um melhor desenvolvimento social e humano. Essas dificuldades são ainda mais intensas e perceptíveis no ensino básico, setor em que, embora vejamos projetos como o da obrigatoriedade do ensino de História e cultura da África e o do malsucedido "kit contra a homofobia", a preocupação governamental brasileira é, há décadas, quase que exclusivamente quantitativa: matricular e aprovar um grande número de estudantes.

Hoje, pensamos em ensino formal e "educações" voltadas especificamente para crianças e jovens, mas nem sempre houve essa preocupação. Philippe Ariès, em sua "História Social da Criança e da Família", clássico da chamada História das mentalidades, demonstra como a noção de infância enquanto estágio específico do desenvolvimento humano é recente. Segundo o historiador, antes do século XVIII, a criança e o jovem eram vistos como adultos em miniatura, não possuindo, então, nenhuma particularidade. Os jogos dos quais participavam, suas roupas e sua sociabilidade eram os mesmos dos adultos. Portanto, a ideia de uma educação específica, de um ensino formal voltado para a formação e o desenvolvimento de aptidões básicas para o aprimoramento motor e cognitivo da criança e do adolescente, não é uma preocupação muito antiga.

Decorrente dessa mudança de mentalidade, a escola, como a conhecemos atualmente, é uma invenção ainda jovem. A Pedagogia, por exemplo, surge como conhecimento cientificamente organizado apenas na segunda metade do século XIX. Não por acaso, os nomes mais famosos a respeito do estudo da educação e de seus procedimentos psicológicos são intelectuais novecentistas (século XX): Piaget, Vigostsky, Paulo Freire. Sendo assim, alguns dos problemas com que nos deparamos no ensino básico só são entendidos como problemas há menos de duzentos anos. Já a intolerância e a discriminação, tão presentes no mundo escolar, ainda nem eram percebidas como problemas. Pelo contrário, havia estudos pseudocientíficos que justificavam a superioridade social dos brancos em relação aos negros e demais etnias não-europeias pelo seu suposto componente racial, naturalizando, por meio de observações das diversidades fenotípicas da (única) espécie humana, condições históricas de submissão compulsória. Eram concepções completamente etnocêntricas*.