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Por que não faz sentido ter orgulho de ser hetero


Com todas as reivindicações pedindo defesa dos direitos humanos que vêm acontecendo, em que grupos oprimidos se engajam numa luta por igualdade, e que tentam alcançá-la principalmente mostrando tal característica que a sociedade tenta reprimir – como identidade sexual e cor – com orgulho, deu-se origem a movimentos contrários como "Orgulho de ser hetero" e "Orgulho de ser branco".

Mas ora, por que alguém cuja identidade sexual já é predominante na sociedade precisaria ter orgulho disso? Ou por que alguém que possui a pele branca precisaria reafirmar seus direitos se vivemos num mundo em que os brancos constituem a maior porcentagem entre os mais ricos, não sofrem discriminação racial, têm mais oportunidades de boa educação – e, logo, de emprego –, correm menos risco de vida* e são maioria na mídia – que os mostra como o padrão de beleza ideal – enquanto os negros constituem a maior parte dos que vivem com até R$ 70,00 por mês? Não teriam os homens, brancos, cristãos e heterossexuais tudo a seu favor?

É democrático ser antidemocrático?

Nas últimas semanas, acompanhamos as lamentáveis declarações de Joelma em entrevista concedida à revista Época. Em meio a um contexto de ascensão do "religiosismo" conservador de determinados setores do cristianismo brasileiro, representados na pessoa do intragável pastor Marco Feliciano, a cantora da Banda Calypso incitou tanto protestos progressistas quanto confusas defesas reacionárias. Não sei se a direita política nalgum momento já soube argumentar de forma razoavelmente coerente, sem atropelar os supostos interesses democráticos presentes mesmo em seu débil discurso – ainda mais débil do que suas ações –, mas desta vez conseguiram superar inclusive os limites de sua ignorância e de sua retórica capciosa.

Homofobia justificada?

Nos últimos dias, um vídeo de Joelma, vocalista da Banda Calypso, andou tendo bastante repercussão na internet. O motivo disso é que no vídeo a cantora foi registrada dizendo a um fã que ele deveria "deixar de ser gay". Logo depois, houve todo tipo de revolta contra essa atitude da cantora. 

No Twitter, lançou-se a campanha "Cala a boca Joelma", que chegou aos trending topics (assuntos mais comentados do microblog). Outras pessoas, inclusive homossexuais, desaprovaram a campanha, afirmando que Joelma tem o direito de se expressar e que essa reação reforçava a ideia de "ditadura gay". 

Porém, vejamos: ninguém escolhe ser gay. Ou será que alguém, em sã consciência, simplesmente escolheria ir contra aquilo que predomina na sociedade, sujeitando-se ao preconceito e à discriminação e muitas vezes arriscando o amor da própria família e amigos, se isso não fosse parte de sua identidade e algo que o faz feliz? Levando isso em consideração, as pessoas nascem hetero ou homossexuais. Ou seja, no momento em que Joelma diz "deixa de ser gay" ao fã homossexual, seria equivalente a dizer "deixa de ser negro" a um afrodescendente.