Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador ficção. Mostrar todas as postagens

Adeus aos serviços postais?

Novo! Lançamento! Atualize-se! Essas e mais outras expressões estão constantemente no nosso cotidiano, nos persuadindo para nos mantermos "modernos" diante de um mundo que depende cada vez mais da tecnologia nas relações profissionais e, sobretudo, nas relações sociais.

De criança para criança

Desde o despertar de sua consciência, ela vivia em crise. Perguntava-se sobre o mundo, a vida, o estudo, a miséria – que ela não presenciava, apenas ouvia falar – e tudo o mais.

Em casa, ao mesmo tempo em que era tratada como uma princesinha mimada, viam-na como uma espécie de aberração. Que menina mais esquisita, diziam, vive fazendo perguntas demais, músicas demais, nunca entende nada, parece até uma retardada. Estranho falarem isso de alguém que apenas queria entender as coisas, que apenas queria entender o mundo ao seu redor. Estranho. Mas era o que acontecia. E, cada vez mais, com maior frequência.

Na escola, era calada. Não que não tivesse perguntas a fazer por lá também. É que, lá, não tinha intimidade com as pessoas. Não sentia conforto e acolhimento suficientes para mostrar sua verdadeira personalidade, tão criticada pelos familiares. Ora, se até os meus pais acham que estou errada e que deveria parar com essas coisas, é porque realmente devo estar.

Qual o sentido da vida? Por que umas pessoas nascem ricas e outras pobres? Para que se casar, se as pessoas sempre se separam? Por que não posso ser feliz, se não comprar uma boneca da Estrela? Por que vejo meninas e meninos mais velhos se beijando, enquanto que nunca vi meus pais se beijarem – a não ser, é claro, aquela vez em que meu pai foi promovido. E o tio Jorge? Ele arranjou um namorado. Não entendo porque o expulsaram de casa. Será que é porque ele fica com essa mania de beijar os outros na boca e não faz como meus pais, que há anos não se beijam? Sei lá, beijar na boca deve ser errado. Logo se vê que os que mais beijam são os adolescentes, os que não têm nada na cabeça. Devo parar de tanto fazer perguntas? Acho que sim, nunca obterei respostas mesmo. Sou a única que se interessa por elas.

Experiência

Ele era branco, tinha as costas arqueadas para frente, trazia na pele as marcas do tempo, as marcas que encontramos, invariavelmente, na fisionomia daqueles que já passaram dos 60. Mas ele, bem... ele já passara há muito dos 60, arrisco dizer que já chegara aos 75, mas parecia já ter ultrapassado os 80, pois o tempo, o  trabalho árduo de sol a sol e  a vida de proletário o castigaram bastante. Ele era somente mais um daqueles anciões que sentam frente a suas casas para observar o movimento da rua e, na cabeça, aquele filme feito de um amontoado interminável de lembranças.

Esse senhor - infelizmente não sei seu nome - passava diariamente pela rua de minha antiga casa, com um gaiola na mão, bem cedo. Ia passarinhar em algum lugar, alguma mata que ainda tivesse pássaros. Um transeunte de passos lentos e curtos, mas não, não moribundos, eram passos fortes e vivos. Outras vezes, eu o via sozinho, na frente de sua casa de tijolo cru - ele morava só -, capinando, atento a tudo. Ele pensava que se parasse de trabalhar, tudo parava, inclusive sua vida. Parar é morrer e morrer é coisa que ele, sem dúvida, não queria. Eu via em seus olhos o gosto pela vida.