O lego abissal de Eliane Brum

Ela, o bloquinho. As pessoas, a caneta. A tinta, a vida que segue e finda, mas deixa marcas na história. É sempre com esses elementos que Eliane Brum apura a complexidade da vida real e a converte em história escrita. Mas só consegue obter êxito porque ela se esvazia, por um momento, de sua vida para ser preenchida por outras.

No sentido que o filósofo inglês John Locke (1632-1704) atribui à frase, vejo Eliane Brum como uma “folha de papel em branco”, disposta a ser preenchida com histórias de (supostas) pessoas comuns. “É uma escolha política”, diria ela. Mistura-se tanto às narrativas da vida alheia ao ponto de tomar decisões decisivas, como reapropriar-se de seu tempo. Também pode ficar doente, perder ou ganhar peso e adquirir — sem pretensão, claro — três hérnias cervicais. O que não muda nesse processo é seu abissal desafio pessoal de mostrar que cada vida é extraordinária, porque “a gente só existe como narrativa”.

Ávida por “desacontecimentos”, interessa-se por pequenas delicadezas do cotidiano. Em uma dessas, Eliane se surpreende ao testemunhar o exato momento em que uma criança descobre que até as pessoas quebram.

Eliane Brum é demasiadamente humana  com todas as implicações que isso significa , o que, sem dúvida, a torna “gente como a gente”, para usar o clichê. Não gosta de heróis, por isso suponho que ela não gostaria de ser vista como uma. E justamente por esse motivo transcrevo aqui seus defeitos. É Eliane quem fala para a Coletiva.net: “Sou rancorosa, levo tudo muito a sério e sou muito tensa”.

Em seu Twitter, a frase de apresentação fica por conta do poeta francês Rimbaud (1854-1891): “Por delicadeza, perdi minha vida.” Disso, eu discordo veementemente. Talvez o melhor meio de (in)definir Eliane Brum seja através de um poema. Chama-se Antropofagia, escrito por Hudson Filho:
"(...) Nesse interminável processo de construir e reconstruir a si, me desmontei feito um Lego, hoje sou melhor, muito melhor, do que aquilo que fui ontem, porque hoje eu sou um pouco eles! Devorei-os num ritual antropofágico (...), sou aquilo que digeri, sou quem abracei, quem perturbei, sou aqueles que amei. Ao contrário do que era (...), hoje SOU, eu vivo neles, eles vivem em mim...! Hoje sou, hoje vou, hoje tenho de quem lembrar... Hoje SOU!"
OK. Agora contarei a mesma história, entretanto de outro jeito.

Eliane Brum é jornalista, escritora, documentarista e colunista da revista Época. É uma das jornalistas mais premiadas do Brasil na atualidade. Seus principais instrumentos de trabalho são o olhar e a escuta. É gaúcha da cidade de Ijuí.

Quando adolescente, como quase todos os adolescentes (aqui também me incluo), não tinha certeza de qual curso seguir carreira. “Eu achava que eu não servia para nada”, desabafa. Até que (mais) um professor, já na universidade de jornalismo, mudou a vida dela: ajudou-a a descobrir-se repórter. Brada, desde então: “ser repórter é a melhor profissão do mundo!”. Chegou, também, a cursar história, mas não concluiu.

Seus pais também são professores. Aposentados, acredito. Não sei se Eliane chega aos pés  sempre simbólicos  de sua mãe Vanyr no tocante ao cuidado e à atenção com aqueles que a cerca ou se sua sensibilidade é maior do que a de seu pai  ele guardou guardanapos e pedaços de papel quando Eliane começou a se descobrir escritora, ainda criança. Com o conteúdo desse material, recolhido por Argemiro, publicou seu primeiro livro aos 11 anos: Gotas da infância. Certeza, esta eu tenho, é de que o amor que seus pais têm um pelo outro adoçou o olhar de Eliane para com os outros.

Aos 15 anos, Eliane gestou seu bebê alien Maíra que, segundo ela, é a coisa mais linda que já viu.

Com um grande senso ético pessoal e, indissociavelmente, profissional — porque visceral , procura sempre manter o respeito à história do outro. Nesse percurso, já falhou. Mas ela, dignamente, assumiu o seu erro e então o consertou (ou ao menos tentou fazê-lo)mesmo que tardiamente.

Dito isso, recomendo: leia o mais recente livro publicado de Eliane Brum, A menina quebrada (Arquipélago Editorial, 2013). O livro reúne 64 textos publicados originalmente em sua coluna no site da revista Época. Desfrute, se possível, da oportunidade única de desacomodar-se, perturbar-se e deliciar-se ao descobrir não só um, mas vários mundos a partir de outros ângulos. É inegável, também, chegar à conclusão de que Eliane está contando seu percurso de vida, seu lego abissal de “desidentidades”, assumindo o protagonismo de sua vida ao deixar ecoar as vozes de todos que a marcaram.

Em minha perspectiva, o melhor que fica quando se acaba de ler o livro é saber que ele continua sendo escrito semanalmente em sua coluna de opinião  por ela e por nós, seus leitores.

Por fim, me despeço com um vídeo no qual Eliane Brum fala a respeito do livro que acabei de indicar a leitura. Deguste sua voz doce com a delicadeza da escuta.

2 comments:

  1. Querido Helder,
    Me emocionei muito ao ler seu olhar sobre mim e a minha escrita. Seu texto me levou a pensar coisas novas. Adorei, especialmente, a imagem do lego. Muito obrigada!
    Eliane

    ResponderExcluir
  2. Helder, o seu texto é excepcional! Já o parabenizei antes, mas não custa nada repetir: bravo! Quisera eu ter uma leitura tão clara e profunda do trabalho de uma escritora / jornalista que tanto valorizo e admiro! Só me resta admirá-lo também!

    ResponderExcluir