
Porém, com a recente facilidade do acesso à música – e não só à música em si, mas também no processo de criação dessa –, temos um acervo cada vez mais crescente de bandas e gêneros musicais diferentes. Prova disso é a dificuldade para encaixar uma música num gênero musical, tamanha são as influências e experimentações. A partir daí, repito que há, sim, artistas que ainda ousam experimentar musicalmente e trazer inovações – mesmo que isso não os leve, necessariamente, à grande mídia.
Dito isso – e para confirmar o que foi dito –,
apresento-lhe Gogol Bordello. A banda é liderada pelo vocalista ucraniano – descendente
de ciganos Servo Roma – Eugene Hütz (ou, quem preferir, pode chamá-lo de Yevgeniy Aleksandrovich Nikolayev,
seu verdadeiro nome), e
composta por mais sete integrantes – vindos da Rússia, Equador, Estados
Unidos, China, Etiópia e Israel.
Para fazer suas músicas, a banda se inspira principalmente
na música cigana do Leste Europeu, depois a mistura com o punk, dub (ritmo jamaicano),
acrescenta violino, acordeão, às vezes saxofone, e o que mais lhe derem vontade
– como, por exemplo, o frevo pernambucano, presente na música "In The Meantime
In Pernambuco", do álbum "Trans-Continental Hustle", inspirado naquilo que Eugene
viveu enquanto morou no Brasil, sendo este apenas um entre tantos países em que o cantor já
residiu.
A constante experiência de Hütz como imigrante também pode ser vista nas letras de suas músicas, que às vezes podem até ser escritas com idiomas diferentes misturados. Mas, além disso, críticas sociais não se fazem menos presentes, como, por exemplo, em "Supertheory of Supereverything", na qual canta "I don't read the Bible/ I don't trust disciples [Eu não leio a Bíblia/ Eu não confio em discípulos]" ou em "American Wedding", sobre o tradicional casamento americano, que diz "I understand the cultures/ of a different kind/ but here word 'celebration'/ just doesn't come to mind [Eu conheço culturas/ das mais diferentes/ mas aqui a palavra "celebração"/ apenas não vem à cabeça]".
Toda essa mistura das mais diversas influências resulta em divertidas
músicas que, apesar de não agradar tantas pessoas assim – principalmente
àquelas acostumadas apenas com a mesmice musical que falei anteriormente –,
produz um som original e difícil de ser assimilado a bandas as quais estamos acostumados a ouvir. Seu
trabalho é exposto de forma bastante teatral e com forte presença de palco em
suas apresentações. Para os que procuram por algo feito por artistas que realmente apreciam fazer
música e não a veem unicamente como comércio, que fogem da "popzação" a qual
muitos se submetem – que faz Coldplay e Taylor Swift soarem quase a mesma coisa – e que acham que não é mais possível fazer algo novo na música, Gogol Bordello, por criar uma música refletindo sua própria cultura, essa que pode ser descrita como formada através da adoção do que há de melhor em todas as outras culturas, pode surpreender.